História dos Açores | History of the Azores

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A MENINA LUSO AMERICANA DA FOTO COM JOHN KENNEDY (por Onésimo Teotónio Pereira de Almeida)
Saio hoje para Portugal e tive que saltar da cama bem cedo para dar conta de tudo. Ontem, sem saber para onde me virar, já tarde da noite recebi um pedido...
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A MENINA LUSO AMERICANA DA FOTO COM JOHN KENNEDY

 (por Onésimo Teotónio Pereira de Almeida)

Saio hoje para Portugal e tive que saltar da cama bem cedo para dar conta de tudo. Ontem, sem saber para onde me virar, já tarde da noite recebi um pedido urgente do Tony Goulart, da Califórnia. A revista Sábado procura desesperadamente o paradeiro de uma tal Olivia Goulart, que se crê hoje com o nome de casada, Howard, e que é a mocita que na foto abaixo está a entregar um ramo de flores ao Presidente John Kennedy. Ela foi com uma delegação de luso-americanos à Casa Branca agradecer o papel que ele teve, enquanto ainda senador de Massachusetts, de conseguir que os EUA autorizassem a vinda de 2500 sinistrados do vulcão dos Capelinhos (1957-58).

Um grupo de açorianos, sobretudo faialenses de Massachusetts e Rhode Island, a que se juntaram outros da Califórnia, e graças à intervenção de alguns políticos locais luso-americanos como Joseph Perry, Jr, Representante Estadual no Congresso de Rhode Island, conseguiu atrair as atenções do então Senador Kennedy e de John Pastore (reconhecível também na foto), Senador de Rhode Island, tendo assim chegado ao Presidente Eisenhower que, em férias em Newport, assinou a autorização (primeiro, de vistos para 1 500 e depois de mais 1000). Já agora, e antes de prosseguir com a minha história, lembro que foi esse o papel de Kennedy e não da entrada dos 170 000 emigrantes portugueses que, entre 1965 e 1980 deram entrada nos Estados Unidos, como tem sido ditto em Portugal e mesmo em jornais americanos. A legislação que alterou o sistema de cotas da emigração para os EUA é de 1965. Toda esta história está, aliás, muito bem investigada graças a uma investigação para que consegui um subsídio da FLAD e pedi a Daniel Marcos que levasse a cabo, a fim de ser publicada na editora Gávea-Brown: The Capelinhos Eruption: Window of Opportunity for Azorean Emigration, 2008.

O livro foi depois publicado em tradução portuguesa pelo Instituto Açoriano de Cultura, com o título A Erupção dos Capelinhos: Janela de Oportunidade para a Emigração Açoriana.Regressemos entretanto à história que estava a contar: O pedido do jornalista da Sábado havia-me chegada às mãos anteriormente por outra via e eu simplesmente dera uma série de contactos de pessoas que poderiam eventualmente ajudar o jornalista. Por sinal, uma delas era mesmo Tony Goulart porque essa foto da ida dos luso-americanos à Casa Branca fora publicada no livro Capelinhos – a volcano of synergies, por ele coordenado. Talvez ele tivesse o contacto da senhora ou de familiares.A busca entretanto alargou-se sem resultados e ontem voltaram de novo a bater-me à porta. Era urgente e o jornalista – diziam-me - estava em contra-relógio. O pedido, curiosamente, chegava-me agora da Califórnia, via o próprio Tony Goulart, velho amigo. Aí, tive mesmo que deixar de lado o trabalho e ver o que conseguia. Primeiro, google o nome da senhora associando East Providence ao nome dela. Apareceu logo uma Olivia Howard uma “Family Therapist” em East Providence. Os contactos vinham disponibilizados num portal dela e resolvi escrever-lhe um e-mail a perguntar se por acaso não seria a menina da foto. Depois, teclei também uma “Carta ao Director” do Providence Journal. Quem sabe se eles se interessariam também por escrever uma story sobre a senhora, agora que estamos a ser inundados de memorabilia Kennedy por causa dos cinquenta anos do assassinato? Hoje, logo de manhã recebi resposta da Olivia Howard: Yes, I am that Olivia… Please call, my # is….”Liguei-lhe de imediato, claro! Conversámos e ela lá me contou das suas recordações do evento.

Partilhado por Joao Carlos Carreiro 


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A modernização da indústria de laticínios em S. Miguel – 1937-1946


Refletindo sobre a exposição de Victor Machado de Faria e Maia, à data intendente de pecuária do distrito de Ponta Delgada, poderemos isolar o período entre 1937 – reunião de agosto na Junta Geral do distrito, com a proposta de uma modalidade de construção e exploração de uma moderna fábrica de laticínios (v. abaixo) – e 1946 – apetrechamento final dessa fábrica, começada a construir em 1942 mas noutra modalidade que não a inicialmente prevista e desejada, e “ultimato” aos restantes industriais locais pela Direção Geral dos Serviços Pecuários – como os anos decisivos não só para o crescimento quantitativo dessa fileira em S. Miguel, até rapidamente assumir a primazia socioeconómica, como também para o modo como este processo se tornou possível.

O parágrafo seguinte (2) apresenta resumidamente essa exposição do intendente de pecuária, para na sua base analisarmos nos parágrafos consequentes as movimentações no setor em S. Miguel ao longo desse período (3.1, 3.2), e reconhecermos depois a resultante (4).

  • V.M. Faria e Maia divide a história dos laticínios micaelenses (até à data da escrita do artigo, junho de 1947) em três fases:
  • Fase inicial – antes de 1875: o gado bovino inicialmente introduzido no arquipélago não era de vocação leiteira. Apenas sob impulso da Sociedade Promotora da Agricultura Micaelense (1843) foram introduzidos alguns espécimes de raças com maior produção de leite – nomeadamente a “Holandesa” (Holstein-Frísia, que prevaleceu no séc. XX). Quanto à tecnologia de transformação do leite em manteiga, reduzia-se à desnatação espontânea e batedura em pote, de fabrico caseiro, tal como a produção de queijo.
  • Fase do desenvolvimento – primeiro período, 1876-1896: introdução de modernas máquinas a vapor para desnatação, batedeira, tanques… compradas em Londres por Alexandre Leite da Gama. O qual igualmente aí contratou um mestre de fábrica, de nome Barber, tendo antes trazido da ilha de S. Jorge a operária Ana Augusta Pedrosa, conhecedora do fabrico de queijo de melhor qualidade.
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Alçado principal da Fábrica

Depois de sucessivas instalações industriais em S. Miguel, sempre com maus resultados económicos, esse primeiro industrial (então moderno) de laticínios nesta ilha mudou-se, em 1894/5, para S. Jorge, de onde passou a exportar queijo para aquela outra ilha. Nesse período, Alexandre Leite e também José Maria Raposo do Amaral continuaram a importação e cruzamento experimental de reprodutores de outras raças bovinas.

Segundo, 1897-1910: período de crise geral na agricultura micaelense, mas com algum excedente de leite, o que motivou a abertura de pequenas indústrias artesanais. V.M. Faria e Maia salienta que aí se encontravam ainda máquinas primitivas, por exemplo movidas por ligação a uma nora de tração animal. Algumas tradições familiares mobilizadoras ter-se-ão todavia consolidado, já que, dessa meia dúzia de produtores/industriais, Artur da Gama, que estudou agronomia em França, era sobrinho de Alexandre Leite; Caetano Velho Cabral foi avô de Eduardo Harding Read (foto 1); e Bernardo M. Faria e Maia foi avô do autor que estamos a seguir.

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Eduardo H. Read

Terceiro período, 1911-1927: a produção pecuária aumentou, em resultado das anteriores importações de animais reprodutores, da extensão de pastagens artificiais à volta de Ponta Delgada, Ribeira Grande e Lagoa, e da utilização de adubos. Industrialmente, foram introduzidas as desnatadeiras centrífugas. Enquanto o gado de carne se desvalorizou pela redução do preço desta após a Guerra Mundial I – como ressalva o autor, este facto económico pode ter reforçado a orientação pecuária para o gado de leite. De entre os vários pequenos industriais, maioritariamente estabelecidos à volta de Ponta Delgada, na opinião do intendente de pecuária, 

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Eduardo S. Albergaria

Eduardo Soares de Albergaria “[merece] especial menção (…) pela compreensão que, desde início, teve na boa orientação a dar à indústria, o que não é de surpreender visto, entre todos os outros, se distinguir pela sua cultura, espírito progressivo e altas qualidades de iniciativa” (op. cit., Nº 6: 50).Foto 2.- Eduardo S. Albergaria

A qualidade normal dos produtos seria porém a que se depreende pelas iniciativas oficiais e privadas nos anos seguintes.

  • Fase de intervenção oficial – Decreto nº 16.130 de novembro de 1928, e aumento da intervenção dos Serviços Pecuários da Junta Geral do distrito de Ponta Delgada na melhoria dos efetivos leiteiros.

Primeiro período, 1928-1936: nesse primeiro ano, dos 51 industriais reconhecidos na ilha (além de fabricantes não industriais) apenas 6 fabricavam tanto queijo como manteiga. E, dos produtores desta última, 20 não tinham sequer desnatadeiras, fabricando-a tradicionalmente, e distribuindo-a depois ao domicílio. No fim do período, as exigências higiénicas (“com desmedida benevolência”, op. cit., Nº 6: 52) da Intendência de Pecuária tinham reduzido o número de industriais para 23. A produção de leite ultrapassava em muito a procura para consumo em natureza, a indústria não transformava o excedente com qualidade suficiente para ser competitivo no mercado continental, e a concorrência de margarinas importadas era forte. O setor entrara assim novamente em crise.

Em resposta, alguns interessados promoveram reuniões em várias localidades da ilha a favor do cooperativismo, inclusive que compensasse a contratação externa de um técnico que viesse melhorar os processos de produção local. O relatório entregue ao Sindicato Agrícola de Ponta Delgada, por uma comissão presidida por V.M. Faria e Maia e da qual fazia parte E. Soares de Albergaria, em dezembro de 1931, dava porém conta da inviabilidade do projeto por desinteresse da grande maioria dos produtores de leite.

Segundo, 1937-1946: período da constituição da Lacticínios Loreto, Lda., que a seguir analisaremos.

Antes, numa nota a um eventual desenvolvimento da datação anterior, registem-se as expectativas deste intendente de pecuária (op. cit., Nº 7: 64) sobre o incremento do setor pela concorrência entre a Lacticínios Loreto e as fábricas que em 1947 se projetavam.

A abrir uma quarta fase (D), caraterizada então pela concorrência entre empresas industriais modernas – ainda que a enquadrar pela intervenção da Junta Nacional dos Produtos Pecuários (criada em 1939) no agrupamento das unidades fabris, na determinação das respetivas zonas de influência, bem como, na opinião de intervenientes como o próprio intendente em Ponta Delgada (op. cit., Nº 7: 61, 62), no preço mínimo ao produtor e no preço máximo do produto transformado – empresas essas orientadas definitivamente para o mercado externo. Enfim, se no fim do séc. XX a compra da Lacticínios Loreto e da Lacto Açoriana, pelo grupo multinacional Bel de origem francesa, subalternizou decisivamente na fileira do leite os produtores locais, justificando a discriminação de uma quinta fase (E) na história dos laticínios desta ilha, fica ao cuidado dos atuais especialistas na matéria.

  • Voltemos aqui ao início do período decisivo para a atual proeminência socioeconómica dos laticínios micaelenses. Depois de novas iniciativas a favor do cooperativismo, que promovesse o desenvolvimento tecnológico industrial, em resolução de 18 de outubro de 1937 a Comissão Administrativa da Junta Geral respondeu afirmativamente à proposta que o representante dos industriais de laticínios, E. Soares de Albergaria, fizera numa reunião a 23 de agosto desse ano para que esse organismo financiasse a construção e apetrechamento moderno de uma fábrica, cedendo-a a uma cooperativa dos produtores de leite, a qual reembolsaria aquele organismo com juros e em prazo a combinar – com o que o presidente da Junta Geral, Duarte Manuel A.A. Bettencourt, declarara aliás logo naquela reunião o seu acordo de princípio.

Posto isso, o Sindicato Agrícola de Ponta Delgada abriu uma subscrição para lavradores interessados em participar, contando no fim do ano com 192 inscritos, um número tido como suficiente para a constituição da cooperativa.

A Junta Geral incumbiu então aquele representante dos industriais, um representante do Sindicato, e o intendente de pecuária, de apresentarem um projeto da fábrica para o qual se pediria o apoio financeiro do Estado – visto que aquele organismo local só por si não possuía verbas necessárias para um investimento dessa monta.

Este grupo de estudo delineou um projeto faseado para uma fábrica que transformasse diariamente 25.000 l. Primeiro, em leite para consumo público – com pasteurização, engarrafamento e frigorificação – manteiga, natas frescas, e aproveitamento do leite desnatado para o fabrico de queijo de tipos “cheddar” e “holandês”. Mas comportando espaço para, numa segunda fase, se construírem instalações para o fabrico de caseína e leite em pó ou condensado. Depois de contactarem diversas empresas, em maio de 1938 o grupo recebeu para o efeito uma planta de fábrica, e o respetivo orçamento, da firma dinamarquesa Silkeborg Maskinfabrik – do qual retiraram a valência de leite para consumo, por julgarem demasiado dispendiosa.

Em 27 de janeiro do ano seguinte a assembleia geral do Sindicato aprovou por unanimidade os estatutos da “Cooperativa de Lacticínios de S. Miguel”, elegendo os respetivos corpos gerentes. Como presidente da direção ficaria o eng. agr. Eugénio Ataíde da Câmara, que substituíra E. Soares de Albergaria na comissão instaladora. Na deliberação de 2 de setembro de 1938 que dá conta desta substituição, e diferentemente da proposta daquele representante da indústria na reunião de agosto do ano anterior na Junta Geral, a assembleia geral propôs-se ainda pedir a essa instituição oficial uma isenção de juros, e que o prazo do reembolso fosse determinado apenas depois de apurada a possibilidade do seu cumprimento pela nova cooperativa, cuja fábrica se concentraria na produção de manteiga e queijo (conforme o estabelecido pelo grupo de estudo que preparara o projeto).

 “Depois destas resoluções pareciam estar afastadas todas as dificuldades para a constituição da cooperativa e construção da fábrica. Mas, infelizmente assim não aconteceu, porquanto, logo depois desta reunião, começaram os derrotistas de mãos dadas com os pseudo-industriais (…) a preparar, num inteligente trabalho de sapa, uma surda campanha contra os benefícios a obter da Cooperativa conseguindo, malfadadamente, lançar os pobres lavradores, até àquela data sua presa fácil, numa atmosfera de medo e desconfiança nos intuitos dos que denodada e desinteressadamente se batiam por (…) o bem-estar da lavoura micaelense” (op. cit., Nº 7: 55). Nestas palavras, judicativas mas sem menção a factos e nomes, explica o intendente de pecuária o fracasso do projeto que visava responder à referida crise do setor.

A resposta viria por outra via que não a da intervenção oficial, ou sequer a da mobilização social.

  • No dia 16 de abril de 1937, em artigo conjunto no Diário dos Açores, Eduardo Soares de Albergaria e Eduardo Harding Read apresentaram à comunidade micaelense a Lacticínios Loreto, Lda. Que tinham fundado aproveitando as instalações da Lacticínios do Tanque, do primeiro – a qual funcionava numa das dependências da Quinta do Tanque, na zona das Laranjeiras, onde o industrial habitava – e os estudos superiores sobre a moderna produção de laticínios que o segundo fizera recentemente em Reading, Inglaterra – aliás não só sobre as técnicas relativas a diferentes tipos de queijo e manteiga, mas também as relativas a produtos derivados, por exemplo a baquelite (feita com caseína retirada do leite desnatado) com a qual a Lacticínios Loreto veio a produzir botões, tabuleiros e peças de jogos de damas, etc.

Nesse artigo, explicaram ser esta uma sociedade por quotas, e não uma cooperativa como era do desejo dos autores, dado o insuficiente número de interessados. Mas que se transformaria “em cooperativa logo que a compreensão e a confiança dos interessados tome vulto indispensável” – intenção reforçada pela indexação, na respetiva escritura, dos honorários dos sócios-gerentes aos lucros eventualmente obtidos, “o que (…) equivale a dizer que trabalharão de graça todo o tempo (…) que não haja lucros”; assim como reforçada pela prioridade dos produtores de leite, e dos operários da fábrica, sobre investidores externos em quaisquer aumentos de capital. Precisamente, o objetivo expresso do artigo era o de informar que a subscrição se encontrava aberta a proprietários e a produtores.

Sobre o êxito desta última, o intendente de pecuária dá no entanto conta ao apontar o “facto pouco dignificante para os capitais micaelenses que não acorreram ao apelo da exposição atrás transcrita” (Com. Reg. Cer. Arq. Aç., Nº 7: 59).

Em agosto seguinte (na referida reunião) E. Soares de Albergaria ainda viria a protagonizar o movimento a favor de uma grande cooperativa, a apoiar pelo Estado na construção da moderna fábrica de que o setor necessitava. Mas um ano depois afastou-se, ou foi afastado, desse processo – V.M. Faria e Maia não escreve uma palavra sobre o assunto. E ainda em 1938 partiu com a família para Lisboa, onde montou uma estrutura de comercialização dos produtos da empresa de que era sócio maioritário, ficando E. Harding Read a geri-la em Ponta Delgada.

Entretanto a redução da oferta internacional de produtos lácteos, com o início da Guerra Mundial II, permitiu aos industriais locais escoarem toda a sua produção – incluindo no mercado negro do abastecimento de navios em trânsito – apesar da irregular e normalmente má qualidade desses produtos (de que V.M. Faria repetidamente isenta a Lacticínios Loreto). Nesses anos toda a produção leiteira foi também aproveitada e até incrementada, tendo-se arroteado novas pastagens para se satisfazer a procura por parte da indústria local.

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Alçado principal da Fábrica 

A conjuntura internacional aliviou pois nessa altura as dificuldades que o intendente de pecuária reconhecia no setor desde 1911.

De tal forma que a generalidade dos produtores e industriais micaelenses de laticínios ignorou o aviso do chefe da Repartição de Higiene e Sanidade da Direção Geral dos Serviços Pecuários, (o também micaelense) João Soares Lobo, após a sua inspeção às Intendências insulares em fins de 1941: as condições de trabalho que encontrara eram na sua maioria a tal ponto deficientes que não seriam permitidas durante muito mais tempo pelo Estado.

Apenas E. Soares de Albergaria e E. Harding Read atenderam a esse aviso. Tomando a decisão de avançar a Lacticínios Loreto, privadamente dados os insucessos anteriores, para a construção da primeira fábrica moderna de laticínios em S. Miguel.

O local escolhido foi a Pranchinha, no extremo oriental de Ponta Delgada, próximo da Quinta do Tanque onde funcionava a fábrica original da empresa. Aí começou a ser construída em 1942. Ano em que E. Soares de Albergaria regressou a S. Miguel.


Para poder levar a cabo esse empreendimento, a Lacticínios Loreto, Lda. abriu 33,3% do respetivo capital à empresa continental Martins & Rebelo – que desde a década de 1920 se estabelecera nas Flores e nas ilhas do grupo central, chegando a dominar grande parte desses mercados – mas com a presidência da administração a competir ao maior dos sócios locais, E. Soares de Albergaria. Como reconhece o intendente de pecuária no distrito de Ponta Delgada, essa empresa micaelense alcançou assim “melhores condições de entrar na concorrência, não só por dar um mais completo e económico aproveitamento à matéria-prima, mas também pelas melhores condições existentes a seu favor derivadas da sua ligação com aquela firma que era dotada de uma vasta e bem orientada organização industrial e comercial” (Com. Reg. Cer. Arq. Aç., Nº 7: 59).

Ainda segundo este autor (op. cit., Nº 7: 62), em junho de 1946 a construção da nova fábrica estava concluída (fotos 3 e 4), e o respetivo equipamento quase completo.

Para a história deste processo acrescento a informação, de fonte familiar, que Eduardo Soares de Albergaria, para cumprir a sua parte do financiamento da nova fábrica, vendeu uma parte do respetivo património imobiliário, e hipotecou todo o restante incluindo a sua residência da Quinta do Tanque. Ao que julgo saber, também Eduardo Harding Read investiu o capital de que dispunha na modernização dos laticínios açorianos, nomeadamente para custear os seus estudos em Inglaterra.

  • Enfim, nesse mês de junho de 1946 – quando se perspetivava o fim da insuficiência da oferta internacional de produtos lácteos causada pela Guerra Mundial II – as Intendências insulares voltaram a ser inspecionadas por João Soares Lobo.

O qual verificou que, à exceção da Lacticínios Loreto, as restantes fábricas micaelenses do setor continuavam a apresentar condições inaceitáveis pela Direção Geral responsável pelo seu licenciamento. O chefe da Repartição de Higiene e Sanidade determinou então o fim desse mesmo ano como data limite para aqueles industriais submeterem a aprovação superior os locais para a construção de novas fábricas, bem como os respetivos projetos. «O não cumprimento das determinações anteriores, dentro do prazo fixado, implicava o encerramento definitivo do respetivo estabelecimento fabril, sem direito a qualquer indemnização» (citação in: op. cit., Nº 7: 64).

E a 31 de dezembro de 1946 a situação da indústria micaelense de laticínios esclareceu-se na seguinte forma: de um lado, integraram-se na Lacticínios Loreto, Lda., os industriais António Luiz Pacheco; José Moniz Furnas; Manuel Pereira Gomes; Aguiar e Oliveira, Lda.; Empresa de Lacticínios Arrifes; Mariano Rebelo Pimentel; Manuel de Sousa Pedro e José de Sousa Pedro.

Do outro lado, o intendente de pecuária aponta apenas os casos da empresa José Furtado Leite, Lda., e do industrial João Maciel, que pediram e obtiveram uma prorrogação dos prazos estabelecidos pela referida Repartição da Direção Geral dos Serviços Pecuários para a entrega dos devidos documentos, até ao fim de 1947. Em junho deste ano, o autor menciona que a primeira dessas empresas já entregara para aprovação superior o respetivo projeto de uma nova fábrica; e que constava que outros industriais micaelenses, liderados por João Maciel, se preparavam para se associar à Sociedade Lacto-Lusa, de Vale de Cambra.

Por Miguel Soares de Albergaria

FONTE

Nota: Para quem se interessar pela interpretação, e aplicação atual, destas informações passadas, fornece-se o seguinte conteúdo: “Industrialização e ‘conjuntos sociotecnológicos’ - O caso dos laticínios açorianos”.

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A Revolta de 1931

A 8 de Abril de 1931 - Levantamento militar nos Açores contra a ditadura portuguesa

S. Braz, esplêndida e formidável fortaleza dos tempos de Manuel da Câmara, seu Alcaide-Mor e seu construtor, era hoje, 9 de Abril de 1931 um mau quartel de artilharia, sem fosso nem esplanada, com construções acima das ameias onde soldados e oficiais não gostavam de estar. Certo que ficava no centro de Ponta Delgada e vizinho das Festas do Senhor Santo Cristo mas isso era pouco consolo para aquelas dezenas de militares que eram obrigados, por dever de ofício, a trabalhar e a dormir ali.

Na cidade, José Bruno Tavares Carreiro era o todo poderoso político de influências inegáveis que, com fumos de autonomista, servia a Ditadura porque os amigos de Aristides Moreira da Mota consideravam que os militares do 28 de Maio tinham acabado com a barafunda da primeira República e posto ordem nas finanças e no Estado, embora o centralismo desenfreado da Revolução Nacional não fosse propriamente o ideal para quem defendia a “livre administração dos Açores pelos açorianos”. Enfim, a alta política tem destas coisas…A tarde era calma e, embora o ditado reze que “em Abril águas mil” o sol brilhava em céu sem nuvens e sem vento que nestas coisas de meteorologia o povo também se engana que não só os cientistas. Parecia um dia quente de verão. Quente, abafado e húmido, ainda mais estava no gabinete do oficial do dia onde o clima era de nervos tensos, muito fumo e vozes baixas. Conspirava-se contra a Ditadura Nacional! Sabia-se que os militares no poder não eram nada brandos com os revolucionários ou golpistas, haja em conta o milhar de mortos que em 1927 sofreram os contra revolucionários.

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- Vocês fiquem sabendo que se não pararmos o Salazar, vamos ter um segundo Mussolini, dizia o tenente José Esteves, magro, de olhar fixo e sorriso nervoso. A coisa está assente, Lisboa, Porto, Funchal e nós, o resto do País vem atrás como cão de caça em busca de perdiz abatida. E acendia cigarro atrás de cigarro, um no outro, lançando no ar lufadas de fumo que enchiam a sala e faziam arder os olhos. - Não sei, dizia o tenente Manuel de Melo, bonacheirão e bem disposto, democrata até à medula e com uma alergia a ditadores que só visto. Esta coisa das revoluções já deu o que tinha que dar. Vamos é lixar-nos todos se a coisa corre para o torto. Mas não há outro remédio. P´rá frente é que é caminho! 

- O Cunha Leal, garantiu-me que todos os deportados alinham; tomar Ponta Delgada é canja e vocês vão ver que nem vai ser preciso disparar um tiro. A população local não se mete que isto são coisas da tropa. O único que pode criar problemas é o Zé Bruno, por isso, tomado o Castelo, vai logo um carro às Furnas buscá-lo que, segundo sei, ele está lá a banhos. Miguel de Almeida, era um oficial brioso, de esplêndida figura, alto, aprumado, era o terror dos pais de meninas casadoiras e pertencia a uma velha família de democratas e militares. Falava em tom pausado, como se ditasse uma escritura pública perante uma assembleia constituinte.

Parecia que todos temiam que a coisa desse para o torto mas, por outro lado, se nada fosse feito, continuariam a vir para o Arquipélago civis e militares castigados, enchendo as pensões e os hotéis (que não eram paraísos nem de comodidade nem de preços). Famílias divididas e destruídas, pouco faltava para os fuzilamentos fascistas da Itália. E se eles não sentirem oposição forte, “é isso que vai acontecer, fiquem sabendo”, sussurrou o Tenente Melo já fora de si.

- E o Caldas de Barros? Não se esqueçam que é militar do quadro e Governador do Distrito. - Ora bem bom, resmungou o Miguel de Almeida, ele não vai querer sarilhos por cá visto que namora com rica moça da ilha. Dele me encarrego eu. – Então, tudo a postos, rematou o oficial micaelense, o único da ilha que ali fazia parte dos conspiradores. E é para já. A coisa então precipitou-se, Almeida sacou da pistola e os restantes, sem discussão puxaram das suas e saíram em corrida.

O Comandante da unidade despachava na sua secretária a reclamação dum recruta que queria emigrar para a América pois tinha casado com uma rapariga de Fall River e precisava duma licença provisória para ir à Lagoa dar o sim na Conservatória, visto que o casamento religioso iria ser mais tarde, na Igreja do Santo Cristo, daquela cidade da Nova Inglaterra.

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Foi nesse momento que ouviu uma gritaria na parada e, olhando pela janela, viu uma série de oficiais que corriam de arma em punho em diversas direcções. Poucos segundos depois, batiam com força à porta do seu gabinete. - Entre, disse o comandante um tanto curioso. - O meu Comandante, desculpará mas isto é uma Revolução e tenho de lhe dar voz de prisão em nome do Presidente da República. – Mas o Presidente Carmona é que me nomeou para este cargo, a que propósito iria ele mandar prender-me.


- O meu Comandante não está a perceber, o Presidente da República a que nos referimos é o presidente Teixeira Gomes. Oh Almeida, você está doido? Não percebe que isto vai ser a sua desgraça? E a do seu velho Pai que, como militar pode vir a ser prejudicado por esta sua atitude irreflectida? - Meu Pai não sabe de nada e, se soubesse, não perderia um segundo a apoiar-me. O meu Comandante considera-se preso e serão respeitadas todas as suas honras e patentes? Ou…

Nesse momento entram de rompante no gabinete do Comando todos os outros conspiradores: - O Castelo está nas nossas mãos, o nosso Comandante fará o favor de dizer se está por nós ou contra nós? Na parada ouviam-se gritos de alegria e abriam-se as portas do Castelo por onde entraram diversos civis que abraçavam eufóricos os militares que os acolhiam simpaticamente.


O governador civil já se rendeu. As outras unidades militares já aderiram; foi um fogo que lhes pegou pelas tripas. A Junta Revolucionária da Madeira já dominou a ilha, falta apenas saber o que se passou em Lisboa e Porto. A coisa vai!

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Enquanto isso, vários oficiais revolucionários aproximaram-se das ameias norte da velha fortaleza e observavam as correrias do rapazio que nervosamente se aproximava das muralhas seguidos pelos adultos em passo mais ou menos vagaroso, empurrados pela curiosidade duma revolta que era coisa nunca vista por estas bandas. O Alferes Martiniano, de luto recente por familiar querido, olhava com semblante carregado mas indiferente para a pequena multidão que se juntava aos poucos junto da porta de armas do Castelo. - Oxalá que esta revolução saia vitoriosa que, ao menos assim, regresso a Lisboa. Estou farto desta solidão atlântica.

O tempo continuava bom com o céu de azul anil sem nuvens, o mar parecia um lago e a baía da doca espelhava os barcos ancorados sem suspeitar que o país tremia de nervos por uma tentativa de repor a legalidade democrática em que só os mais cultos e envolvidos acreditavam. O navio Pêro de Alenquer dos Carregadores Açorianos era o maior dos barcos na doca. Da Itália e da Alemanha sopravam ventos de autoridade e, em Lisboa, o Ministro da Finanças esgueirava-se para dirigir o governo, esmagar a revolta e mandar sozinho em Portugal inteiro de Minho a Timor, durante 37 anos.


Só que, entretanto, tinha que vencer, pelo menos esta revolta, senão o destino da Península Ibérica iria ser outro nas próximas décadas. A sentinela bradou na sua pronúncia micaelense cerrada: - Meu Alferes, está aqui um civil chamado José Ramos, diz que quer falar com o comandante do Castelo, deixo-o entrar?
Boa pergunta, pensou para consigo o alferes, tentando ver pelas ameias do Castelo qual era a pinta do paisano. – Sei lá, pergunta aí ao tenente Frazão, que ele há-de conhecer melhor o bicho. Ramos, pequeno, nervoso e excitado, vinha trazer um recado de Cunha Leal. Entrou. Foi revistado dos pés à cabeça que esta coisa de revoluções tem as suas regras. – Limpo, disse o cabo Júlio encarregado da segurança. Entrou o Ramos e foi levado à presença de Miguel de Almeida: - Meu tenente, Cunha Leal requisitou o Correio dos Açores, por ser o do José Bruno e o mais lido. É preciso um manifesto à população que ele já escreveu. Precisa o engenheiro de saber quais são os oficiais que o querem subscrever. Fez-se um silêncio pesado na Sala dos Retratos para onde o rapaz tinha sido levado. Todos os presentes concordaram em assinar o documento. Mas Ramos trazia instruções: - O director do jornal vai ser o Ferro Alves, e é importante que assinem o Coronel Álvaro Ataíde e o Tenente Miguel de Almeida. Olharam todos para os visados que sentados em dois cadeirões de madeira de acácia, sentiram a impressão de que a coisa não devia ser bem assim mas, já que era para rebentar que rebentasse, depois se veria. O velho coronel não parecia muito convencido do seu papel de herói que isto da tropa quanto mais alto se está, mais pancada se apanha quando a coisa corre para o torto. Calou-se que às vezes o silêncio é de ouro. Ramos porém, compreendeu isso como consentimento e saiu pela porta fora convencido que levava a chave do tesouro.

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Miguel de Almeida, entre apreensivo e divertido, encheu um pequeno copo de aguardente da terra que retirou duma garrafa escondida por detrás duma espécie de balcão e emborcou-o engolindo o líquido com um esgar de quem sentia o álcool escaldar-lhe as goelas e passou os dedos por debaixo do bigode farto. – Ora vamos a ver onde isto vai parar. O coronel levantou-se de vagar e todos se puseram em sentido. Por alguns dias, ele seria a mais alta autoridade dentro do Castelo e os regulamentos, com revolução ou sem revolução, fizeram-se para ser cumpridos.
- Preparem-me a viatura que vou até ao palácio da Conceição ver como andam as modas. O impedido do Coronel estendeu-lhe o quépi, as luvas e o pingalim. O oficial cobriu-se, calçou a luva esquerda, colocando o pingalim debaixo do braço, fez a continência e saiu com passo seguro mas lento. A viatura esperava-o no pequeno pátio nascente do Castelo. Entrou, sentou-se no banco detrás e ordenou: - Para o Palácio. As portas do Castelo abriram-se, o povo começou aos vivas e às palmas, enquanto o carro lentamente, dobrava para o campo de S. Francisco. Ataíde correspondia com continências lentas e firmes. - Por Carlos Melo Bento em 2008-11-11


Fotos partilhadas por  Carlos Manuel Estrela - Texto original 

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1890, Ilha de São Miguel
As primeiras fotografias científicas de uma baleia
“Em 1890, foi publicado em Paris um texto intitulado «Des formes Extérieures du Cachalot», assinado por G. Pouchet e F.-A. Chaves, ilustrado com três desenhos e três...
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1890, Ilha de São Miguel 

As primeiras fotografias científicas de uma baleia

“Em 1890, foi publicado em Paris um texto intitulado «Des formes Extérieures du Cachalot», assinado por G. Pouchet e F.-A. Chaves, ilustrado com três desenhos e três fotografias (Journal de l'Anatomie et de la Physiologie de l'Homme et des Animaux). Estas imagens são anunciadas como as «primeiras fotografias científicas de uma baleia». Através delas é finalmente possível «fixar as características exteriores deste animal, tão famoso quanto mal conhecido» e, assim, como afirmado na introdução do artigo, pondo fim a uma longa era de representações imprecisas. Os autores do artigo eram dois reputados naturalistas: Charles Henri Georges Pouchet (1833-1894), especialista em cetáceos e professor de anatomia comparada no Museu Nacional de História Natural de Paris; e o açoriano Francisco Afonso Chaves (1857-1926), interessado em campos tão diversos quanto a sismologia, o geomagnetismo e especialmente o clima, mas também dedicado ao estudo da fauna e da flora dos Açores. Contudo, Afonso Chaves é especialmente um notável fotógrafo cujo trabalho, na sua maior parte em estereoscopia, permaneceu desconhecido. (…) - Por  Victor dos Reis

AS PRIMEIRAS «FOTOGRAFIAS CIENTÍFICAS» DE UM CACHALOTE (1890) Francisco Afonso Chaves e a Inexatidão da Imagem por  Victor dos Reis

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1886 , Furnas, Ilha de São Miguel
• A “Boca do Inferno” ou “Caldeira de Pêro Botelho” nas Furnas.
A Lenda da Caldeira de Pêro Botelho
Nas Furnas, vai para muitos anos, vivia um homem de muito mau feitio chamado Pêro Botelho.
Como muitos outros da...
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1886 , Furnas, Ilha de São Miguel

  • A “Boca do Inferno” ou “Caldeira de Pêro Botelho” nas Furnas.

A  Lenda da Caldeira de Pêro Botelho

Nas Furnas, vai para muitos anos, vivia um homem de muito mau feitio chamado Pêro Botelho.
Como muitos outros da Povoação, tinha por hábito ir cozer vimes e milho às caldeiras de água a ferver, restos de vulcões que havia no fundo da freguesia.
Ora, uma dessas caldeiras, de acesso bastante perigoso, continha uma lama usada na cura de diversas doenças, nomeadamente o reumatismo.
E uma vez Pêro Botelho, que lá ia buscar lama, escorregou e enfiou-se por ela.
Ah, parecia que se adensava o forte cheiro a enxofre que lá exalava, como se aquilo fosse a entrada para o inferno!
Pêro Botelho bem gritou, mas ninguém lhe pôde valer.
E também ninguém mais o viu depois de ter mergulhado naquela caldeira imensa.
Apenas os gritos dele ecoavam de quando em quando:
— Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!
Dali em diante, se alguém se aproximasse da boca da caldeira e chamasse por ele, levava uma baforada de fumo de enxofre e alguma pedra, vindas lá do fundo, misturadas com lama da cor da cinza e fumo.
As gentes da Povoação passaram a chamar àquela sulfatara Caldeira de Pêro Botelho.
E a verdade é que sempre tremiam de medo daquele homem mau tragado pelo inferno cada vez que tinham de ir ali recolher a lava de efeitos curativos.
Mas, saibam, antigamente a freguesia das Furnas era mais para os lados da Alegria, mesmo atrás do lugar onde se situam as caldeiras.
Pois aí encontrava-se uma capela dedicada a Nossa Senhora da Alegria.
E diz a lenda que uma vez a terra começou a tremer e das fracturas do chão irrompiam línguas de lume.
Desfaziam-se os casebres e as pessoas andavam em pânico.
Naquela tragédia, a capela ficou soterrada, mas houve alguém que conseguiu salvar a imagem da Virgem.
Acalmando-se o vulcão, os sobreviventes foram à freguesia ver como aquilo tinha ficado.
Mas estava tudo destruído e nada os atraía a voltarem a viver ali.
E como tinham fugido para as bandas de Santana, ali mesmo quiseram ir construir os seus novos lares.
E junto deles queriam fazer uma outra capela para guardar a imagem.
Porém, a pedra junta num dia aparecia na manhã do outro no sítio onde o vulcão destruíra a anterior.
As gentes ficaram à coca de noite e obrigaram Nossa Senhora da Alegria a varrer as pedras pelo Caminho do Repuxo, no sentido que lhe interessava.
No entanto, conta a lenda, foi mais o medo da terra perdida do que o amor pela Senhora.
Assim, o novo templo, dedicado à Senhora de Santana, foi feito noutro local, ficando sem construir o da Senhora da Alegria.
A imagem desta, salva do incêndio pela coragem de um paroquiano, encontrava-se queimada no rosto e foi levada para a Caloura, como se aquilo fosse para esquecer.
Porém, não há muitos anos, uns lavradores encontraram no sítio da antiga igreja, a que o vulcão soterrou, uma caveira e um cálice que era usado nas celebrações litúrgicas.

in PORTUGAL LENDÁRIO
O Livro de Ouro das nossas Lendas e Tradições
de José Viale Moutinho, com ilustrações de José Faria
Selecções do Reader’s Digest
1ª Edição, Outubro de 2005

Gravura retirada do livro: “The Azores or Western Islands : a political, commercial and geographical account / by Walter Frederick Walker. - London : Trübner, 1886.”; Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal 

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1897,Caldeiras, Freguesia das Furnas, Ilha de São Miguel
● Aspecto geral da zona das caldeiras nas Furnas em 1897
Os campos de fumarolas, como o das Furnas, na ilha de São Miguel, Açores, são áreas de concentração de nascentes termais e outras...
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1897,Caldeiras, Freguesia das Furnas, Ilha de São Miguel

● Aspecto geral da zona das caldeiras nas Furnas em 1897

Os campos de fumarolas, como o das Furnas, na ilha de São Miguel, Açores, são áreas de concentração de nascentes termais e outras manifestações geotérmicas, em geral associadas a zonas onde rochas ígneas quentes se encontram a pequena profundidade e interagem com os aquíferos. Outras correspondem a zonas de desgasificação das formações, onde o magma subjacente está a perder gases que chegam à superfície com temperaturas e concentrações suficientemente elevadas para poderem ser facilmente notados.

Alguma informação sobre as Furnas 

Ficha técnica, Autor: João Anacleto Rodrigues; Entidade detentora - Arquivo Regional e Biblioteca Pública da Madeira

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1950s?, Furnas, Ilha de São Miguel
Preparativos para a Procissão do Senhor dos Enfermos nas Furnas. Os tapetes de flores são uma característica imporante nesta procissão.
“Esta manifestação de fé, designada como Procissão do Senhor Jesus Ressuscitado...
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Preparativos para a Procissão do Senhor dos Enfermos nas Furnas. Os tapetes de flores são uma característica imporante nesta procissão.
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Preparativos para a Procissão do Senhor dos Enfermos nas Furnas. Os tapetes de flores são uma característica imporante nesta procissão.
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1950s?, Furnas, Ilha de São Miguel

Preparativos para a Procissão do Senhor dos Enfermos nas Furnas. Os tapetes de flores são uma característica imporante nesta procissão.

“Esta manifestação de fé, designada como Procissão do Senhor Jesus Ressuscitado aos Enfermos, é uma das mais antigas e mais afamadas das Furnas devido, sobretudo, “aos tapetes de flores artisticamente confeccionados como expressão de fé na presença real de Cristo na Hóstia Consagrada”


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1900s, Freguesia das Furnas, Ilha de São Miguel;
- Camponês micaelense na Freguesia das Furnas a transportar massarocas de milho num Burro.
Fonte: delcampe.net - Edição postal desconhecida
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1900s, Freguesia das Furnas, Ilha de São Miguel;

- Camponês micaelense na Freguesia das Furnas a transportar massarocas de milho num Burro.

Fonte: delcampe.net - Edição postal desconhecida

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1873, Banhos novos, Furnas, Ilha de São Miguel
● Foto das extintas termas dos “banhos novos” nas Furnas em 1873. Actualmente o Edifício foi adaptado a um Hotel SPA .
Foto de A.J. Rapozo; Arquivo
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1873, Banhos novos, Furnas, Ilha de São Miguel

● Foto das extintas termas dos “banhos novos” nas Furnas em 1873. Actualmente o Edifício foi adaptado a um Hotel SPA . 

Foto de A.J. Rapozo; Arquivo

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1919, Campo de São Francisco, Ponta Delgada , Ilha de São Miguel
● Um aspecto da procissão do Senhor Santo Cristo em 1910 para a “National Geographic”
Autor A.T.Haeberle; Fonte: Ebay
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1919, Campo de São Francisco, Ponta Delgada , Ilha de São Miguel

● Um aspecto da procissão do Senhor Santo Cristo em 1910 para a “National Geographic”

Autor A.T.Haeberle; Fonte: Ebay

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1907, Avenida Roberto Ivens, Ponta Delgada - Ilha de São Miguel.
- Procissão do Senhor Santo Cristo, Avenida Roberto Ivens com Antigo Hospital e Igreja e São José à esquerda e Campo de São Francisco à direita. | Procession of Our Lord of Holy Christ...
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1907, Avenida Roberto Ivens, Ponta Delgada - Ilha de São Miguel.

- Procissão do Senhor Santo Cristo, Avenida Roberto Ivens com Antigo Hospital e Igreja e São José à esquerda e Campo de São Francisco à direita. | Procession of Our Lord of Holy Christ of of Miracles, Roberto Ivens Avenue with the Erstwhile Hospital and the Church and São José to the left and Franciscans Convent to the right.

English translation: Kevin de Ávila​

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1907, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel
- Procissão do Santo Cristo. | Procession of Our Lord of Holy Christ of Miracles.
English translation: Kevin de Ávila​
Fonte: Edição postal da Cervejaria Pereira; - http://www.prof2000.pt/
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1907, Ponta Delgada, Ilha de São Miguel

- Procissão do Santo Cristo. | Procession of Our Lord of Holy Christ of Miracles.

English translation: Kevin de Ávila​

Fonte: Edição postal da Cervejaria Pereira; - http://www.prof2000.pt/

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Set. 1908,Vila das Velas, Ilha de S. Jorge
● Um detalhe da frente marítima de Velas e detalhe do morro Lemos em 1908.
● A detailed look of the seafront and of the Morro Lemos in Vila das Velas in 1908.
In “Serões”: revista mensal ilustrada N.º 39 (...
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Set. 1908,Vila das Velas, Ilha de S. Jorge 

● Um detalhe da frente marítima de Velas e detalhe do morro Lemos em 1908.

● A detailed look of the seafront and of the Morro Lemos in Vila das Velas in 1908.

In “Serões”: revista mensal ilustrada N.º 39 ( Set. 1908); Ilustração de Raposo de Oliveira; Fonte: Hemeroteca Digital
English translation: Kevin de Ávila

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1900, freguesia dos Rosais, ilha de São Jorge
- Vista parcial da freguesia dos Rosais. | A partial view looking towards the parish of Rosais.
English translation: Kevin de Ávila
Fotografia de autor desconhecido, publicada...
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1900, freguesia dos Rosais, ilha de São Jorge 

- Vista parcial da freguesia dos Rosais. | A partial view looking towards the parish of Rosais.

English translation: Kevin de Ávila

Fotografia de autor desconhecido, publicada emhttp://www.geocities.ws/josbett/Rosais.html

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1880, Vila das Velas, ilha de São Jorge
- Vista do Largo Dr. João Pereira (Praça Velha), Vila das Velas. | A view looking towards the Largo Dr. João Pereira (Praça Velha) and 23 people. 21 of those 23 pose to the camera, whilst the other 2 shake...
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1880, Vila das Velas, ilha de São Jorge 

- Vista do Largo Dr. João Pereira (Praça Velha), Vila das Velas. | A view looking towards the Largo Dr. João Pereira (Praça Velha) and 23 people. 21 of those 23 pose to the camera, whilst the other 2 shake hands.

English translation: Kevin de Ávila

Fotografia de autor desconhecido, colecção de Mário Jorge Veríssimo

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    • #1880s
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