1886 , Furnas, Ilha de São Miguel
- A “Boca do Inferno” ou “Caldeira de Pêro Botelho” nas Furnas.
A Lenda da Caldeira de Pêro Botelho
Nas Furnas, vai para muitos anos, vivia um homem de muito mau feitio chamado Pêro Botelho.
Como muitos outros da Povoação, tinha por hábito ir cozer vimes e milho às caldeiras de água a ferver, restos de vulcões que havia no fundo da freguesia.
Ora, uma dessas caldeiras, de acesso bastante perigoso, continha uma lama usada na cura de diversas doenças, nomeadamente o reumatismo.
E uma vez Pêro Botelho, que lá ia buscar lama, escorregou e enfiou-se por ela.
Ah, parecia que se adensava o forte cheiro a enxofre que lá exalava, como se aquilo fosse a entrada para o inferno!
Pêro Botelho bem gritou, mas ninguém lhe pôde valer.
E também ninguém mais o viu depois de ter mergulhado naquela caldeira imensa.
Apenas os gritos dele ecoavam de quando em quando:
— Tirem-me daqui! Tirem-me daqui!
Dali em diante, se alguém se aproximasse da boca da caldeira e chamasse por ele, levava uma baforada de fumo de enxofre e alguma pedra, vindas lá do fundo, misturadas com lama da cor da cinza e fumo.
As gentes da Povoação passaram a chamar àquela sulfatara Caldeira de Pêro Botelho.
E a verdade é que sempre tremiam de medo daquele homem mau tragado pelo inferno cada vez que tinham de ir ali recolher a lava de efeitos curativos.
Mas, saibam, antigamente a freguesia das Furnas era mais para os lados da Alegria, mesmo atrás do lugar onde se situam as caldeiras.
Pois aí encontrava-se uma capela dedicada a Nossa Senhora da Alegria.
E diz a lenda que uma vez a terra começou a tremer e das fracturas do chão irrompiam línguas de lume.
Desfaziam-se os casebres e as pessoas andavam em pânico.
Naquela tragédia, a capela ficou soterrada, mas houve alguém que conseguiu salvar a imagem da Virgem.
Acalmando-se o vulcão, os sobreviventes foram à freguesia ver como aquilo tinha ficado.
Mas estava tudo destruído e nada os atraía a voltarem a viver ali.
E como tinham fugido para as bandas de Santana, ali mesmo quiseram ir construir os seus novos lares.
E junto deles queriam fazer uma outra capela para guardar a imagem.
Porém, a pedra junta num dia aparecia na manhã do outro no sítio onde o vulcão destruíra a anterior.
As gentes ficaram à coca de noite e obrigaram Nossa Senhora da Alegria a varrer as pedras pelo Caminho do Repuxo, no sentido que lhe interessava.
No entanto, conta a lenda, foi mais o medo da terra perdida do que o amor pela Senhora.
Assim, o novo templo, dedicado à Senhora de Santana, foi feito noutro local, ficando sem construir o da Senhora da Alegria.
A imagem desta, salva do incêndio pela coragem de um paroquiano, encontrava-se queimada no rosto e foi levada para a Caloura, como se aquilo fosse para esquecer.
Porém, não há muitos anos, uns lavradores encontraram no sítio da antiga igreja, a que o vulcão soterrou, uma caveira e um cálice que era usado nas celebrações litúrgicas.
in PORTUGAL LENDÁRIO
O Livro de Ouro das nossas Lendas e Tradições
de José Viale Moutinho, com ilustrações de José Faria
Selecções do Reader’s Digest
1ª Edição, Outubro de 2005
Gravura retirada do livro: “The Azores or Western Islands : a political, commercial and geographical account / by Walter Frederick Walker. - London : Trübner, 1886.”; Fonte: Biblioteca Nacional de Portugal